Archive for agosto \23\UTC 2010|Monthly archive page

Capitalismo à prova

Em 2008, a Folha de São Paulo publicou uma matéria sobre Mark Boyle, o economista irlandês que queria provar que os princípios que regem o capitalismo estão errados, vivendo por um ano sem dinheiro. O desafio já dura mais do que o previsto e, mais de 18 meses depois do início, Boyle comemora o que considera o sucesso da sua experiência.

O estilo de vida do irlandês inclui apenas o básico para a sua sobrevivência. Vivendo em um trailer nas proximidades da cidade de Bristol, na Inglaterra, utiliza-se de um fogão à lenha, um chuveiro com painel solar, uma bicicleta e um buraco no chão como banheiro.

Não se pode discutir o que proporciona felicidade para cada indivíduo. Gostos são individuais e é mesmo provável que Boyle seja mais feliz agora que vive de acordo com as suas crenças. Mas alguns detalhes importantes parecem ter sido deixados de lado pelo economista nas suas conclusões a respeito do capitalismo. Ele mesmo fabricou o trailer, construiu a bicicleta, ou produziu o material do saco que usou para construir o seu rústico chuveiro? Esquece-se Boyle de que a maioria das matérias-primas das quais se utiliza para as suas atividades diárias resultam da interação entre indivíduos e mercadorias promovida pelo próprio capitalismo.

Em seu ensaio “Eu, o lápis: minha árvore genealógica”, Leonard Read ilustra como indivíduos que nem mesmo se conhecem e que moram a enormes distâncias ao redor do mundo são capazes de produzir bens da maneira mais eficiente. A ideia de Boyle é planejar e controlar o que produz e consome. Mas planejamento algum pode substituir a eficiência gerada pelo dinamismo do capitalismo.

A busca da autossuficiência é ineficiente. Boyle quer voltar à natureza: produzir o que come e construir o que usa. Mas, embora proporcione maior satisfação a ele, a experiência mostra como produzir ineficiência e desperdício — exatamente o oposto do que ele se propôs a provar. O tempo necessário para que, por exemplo, um cientista criasse sozinho um ambiente para a sua própria subsistência roubaria-lhe o tempo que seria usado para que descobrisse a cura de doenças. Do mesmo modo, não restaria espaço na agenda do médico para socorrer os doentes se o seu dia fosse preenchido por atividades para garantir a sua sobrevivência.

Mark Boyle pretende escrever um livro contando sua experiência e com o dinheiro (sim, dinheiro!) ele pretende comprar um pedaço de terra onde possa reunir adeptos da sua ideias. Comunidades onde indivíduos voluntariamente se reúnam para viver como bem desejarem, de acordo com os seus princípios e crenças, são possíveis e até mesmo desejáveis. Gostos e preferências devem, sim, ser respeitados. E a boa notícia é que, em uma sociedade regida pelos princípios liberais, isso é possível.

A proposta de Boyle pode ser uma alternativa saudável, provedora de satisfação e bem-estar ao seus adeptos, mas não prova o seu ponto de vista e está longe de ser uma receita a ser adotada por todos se a humanidade deseja continuar progredindo e ser cada vez mais eficiente.

Artigo publicado originalmente no site Ordem Livre.

Anúncios

Um caminho perigoso

Em tempos de globalização e intensa difusão de informação, é perturbador admitir que indivíduos e meios de comunicação ainda enfrentam inúmeras restrições à liberdade. Na China, por exemplo, o caso de Gao Zhisheng — o ativista chinês dos direitos humanos e ferrenho defensor do estado de direito desaparecido há um ano — mostra como ainda é perigoso expressar certas ideias.

Mas seria um engano pensar que isso acontece exclusivamente em países comunistas e assumidamente autoritários: a Press Emblem Campaign — uma ONG com base em Genebra, na Suíça — mostra que jornalistas no mundo inteiro são vítimas frequentes da tirania da censura, seja de governos ou de grupos que não desejam ter seus atos expostos aos olhos do público. De acordo com a organização, neste ano de 2010 pelo menos 67 jornalistas já foram mortos em serviço enquanto lutavam contra violações da liberdade de expressão e de imprensa, reportando-as ao mundo.

E onde entra o Brasil nessa história? Não é necessário procurarmos muito longe para encontrarmos exemplos explícitos de censura no país. O período de campanha eleitoral desse ano de 2010 iniciou com a notícia de que a Justiça eleitoral promete rigor no cumprimento da Lei nº 9.504/97, que aborda a proibição do uso de “trucagem, montagem ou outro recurso de áudio ou vídeo que, de qualquer forma, degrade ou ridicularize candidato, partido ou coligação” pelas emissoras de rádio e televisão.

Na prática, isso significa um maior policiamento dos programas humorísticos, que deverão deixar o farto assunto das eleições de lado se não quiserem enfrentar as punições do governo previstas na lei. Estabelecendo uma regulamentação estatal da indústria do humor em um período tão importante para o país, a lei eleitoral vigente demonstra uma intolerância típica de ditaduras.

O caso se torna ainda mais grave quando percebemos que o prejuízo resultante de tais medidas não atinge apenas os ofertantes desse serviço. Os espectadores também acabam sendo vítimas dessa opressão. Uma legislação que dá força à ideia de que o cidadão precisa da ajuda do estado para se proteger de si mesmo subestima e desrespeita a capacidade do eleitor de distinguir a brincadeira da realidade e de tomar as suas próprias decisões sozinho.

Os violadores da lei no Brasil certamente terão um tratamento relativamente brando pela sua infração. A possível multa de até 200 mil reais é, sem dúvida, muito mais suave do que os sequestros, aprisionamentos e torturas sofridos por Gao Zhisheng e do que o fim trágico do grande número de jornalistas que compõem as estatísticas da PEC. Mesmo assim, o rumo que o país ameaça seguir é preocupante. Leis que violam direitos garantidos pela própria constituição são incompatíveis com a democracia, mancham a imagem do país e amordaçam o cidadão. Quanto antes tais regras forem extirpadas da legislação, mais rápido o país se afastará do perigoso caminho que anda trilhando.

Artigo publicado originalmente no site OrdemLivre.org.