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Regulação e ineficiência

No mês de agosto, os Estados Unidos enfrentaram um aumento considerável de casos de intoxicação por salmonela em mais de sete estados. Duas fazendas do estado americano do Iowa — Wright County Egg e Hillandale Farms — fizeram juntas um recall de mais de meio bilhão de ovos. E a Food and Drug Adminstration (FDR), agência governamental de regulação de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos, anuncia que possivelmente haverá mais retiradas substanciais do mercado de ovos potencialmente contaminados com salmonela.

Episódios que resultam em assustadoras ameaças à saúde do cidadão geralmente reanimam as discussões a respeito da responsabilidade do governo de garantir a qualidade de tudo o que é lançado no mercado. A resposta óbvia em casos de surtos de doenças parece ser um aumento do cuidado do estado, através de uma maior regulação do setor onde o problema surgiu. Só assim o cidadão estaria protegido de ofertantes descomprometidos com a segurança do que produzem.

Mas, analisando-se o problema com um cuidado maior, a lição aprendida mostra exatamente o oposto da ideia geralmente aceita como correta.

Ambas as fazendas de onde vieram os ovos contaminados tinham fornecedores de frangos e ração em comum, bem como ligações com negócios com histórico de violação de leis federais e estaduais de saúde, de imigração e ambientais. Por mais de 20 anos, pagaram milhares de dólares por repetidas infrações, mas nada impediu que continuassem em funcionamento. Uma agência que permitiu que tais violações ocorressem, expondo por tanto tempo os consumidores ao risco e não cumprindo o papel para o qual foi criada, não parece ser capaz de garantir segurança alguma.

A ampla aceitação da ideia de que indústrias sujeitas a agências reguladoras são seguras adia — e até mesmo agrava — as consequências do descompromisso de alguns produtores com as práticas corretas e saudáveis na produção de alimentos. E a falsa sensação de proteção oferecida pela regulação governamental faz com que medidas sejam tomadas, muitas vezes, tarde demais.

A regulação exercida por uma agência do governo tira do consumidor a responsabilidade e, com frequência, a preocupação de buscar proteger-se a si mesmo. Governo nenhum é capaz de eliminar todos os riscos que podem recorrer de qualquer atividade comercial. Tentar alcançar tal objetivo seria atrofiar o cidadão, que passaria ser a totalmente dependente do paternalismo estatal.

Por outro lado, a solução que o mercado oferece se mostra muito mais eficiente. Empresas prezam por sua reputação e prejudicar os consumidores não traz bem algum a qualquer companhia. Em um ambiente de livre mercado, empresas que falham em suprir a necessidade do consumidor inevitavelmente se veem obrigadas a mudarem suas práticas ou, até mesmo, fecharem suas portas.

Mas o objetivo aqui não é propor a eliminação de qualquer função do governo, mas encontrar uma que seja mais adequada. Em seu artigo no Chicago Tribune, o colunista Steve Chapman afirma que o governo pode, sim, e deve exercer um papel muito importante: o de garantir que consumidores prejudicados possam punir produtores que os tiverem lesado, exercendo a função de um simples mediador de conflitos — uma das poucas funções legítimas do estado. Porém, qualquer passo a mais se mostrará custoso e débil, aumentando ainda mais a já inchada e ineficiente estrutura regulatória do governo.

Artigo publicado originalmento no site Ordem Livre.

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Ineficiência “verde”

Brian Dunning, do Skepticblog fala sobre A Falácia da Produção Cultivada Localmente.

O famoso problema matemático do Caixeiro Viajante é muito mais do que um jogo divertido. É uma maneira dramaticamente ilustrada de entender as eficiências envolvidas nos modelos de distribuição de produtos. O problema funciona da seguinte maneira: Pegue um mapa e desenhe nele dúzias de pontos. A tarefa do caixeiro é definir uma rota que visite cada ponto, com a mínima distância conectando todos eles. Ele deve visitar muitos locais, e quer gastar o mínimo de gasolina possível. Obviamente, isto é algo que as pessoas estão buscando mais do que nunca nos dias de hoje.

Existe um software gratuito muito legal que usa um algoritmo genético para resolver o Problema do Caixeiro Viajante. Ele foi criado por Michael Lalena e pode ser encontrado em http://www.lalena.com/AI/Tsp/. Desenhe dúzias (ou milhares) de pontos, e o software começará com uma rota aleatória e depois a aperfeiçoe iterativamente, até que ela se torne super eficiente. É divertido tentar cumprir a tarefa com um zilhão de pontos dispostos em um padrão onde parece ser difícil atravessar, e depois ver como o software encontra uma curva surpreendentemente simples que visita todos eles.

Há muitos anos atrás, fiz uma consultoria para uma companhia chamada Henry’s Marketplace, uma empresa varejista que se baseava na comercialização de produtos cultivados localmente. De uma banca de frutas de uma única família, eles se transformaram em uma cadeia de lojas, abrangendo o sul da Califórnia e o Arizona, que vendia os produtos de pequenos agricultores locais. É um negócio amado pelos seus consumidores pela imagem que transmite de alimentos familiares nutritivos, de uma idéia de comunidade e de produtos saudáveis. (A Henry’s Marketplace passou por diversas aquisições e agora é chamada de  Henry’s Farmers Markets.)

Parte do que eu os ajudei foi com o gerenciamento do produto em centros de distribuição. Isto levantou uma questão: Eu havia suposto que o modelo de produto “localmente cultivado” significava que eles não usavam centros de distribuição. O que se seguiu foi uma fascinante conversa, onde eu aprendi parte da economia dos produtos cultivados localmente. Foi uma experiência que abriu os meus olhos.

Nos seus primeiros dias, eles não seguiam um modelo verdadeiro de feira de produtores. Os agricultores entregavam os seus produtos direito para a loja, ou eles mandavam um caminhão para cada agricultor. À medida que eles foram aumentando o número de lojas, eles continuaram praticando a entrega direta entre o agricultor e a loja. A abertura de uma loja em uma nova cidade significava encontrar um novo agricultor local para cada tipo de produto naquela cidade. Geralmente, isso era impossível: os consumidores não vivem nos mesmos lugares onde se encontram os agricultores. As fazendas geralmente estão localizadas entre as cidades. Então, a Henry’s acabou mandando uma quantidade de caminhões de diferentes lojas para a mesma fazenda. Logo a Henry’s percebeu que o modelo da mínima distância entre cada fazenda e cada loja resultou em um ninho de rato de rotas cruzando-se por todos os lados. O que era pra ser eficiente, local e amigável, acabou tornado-se não apenas ineficiente, mas grosseiramente ineficiente. A companhia estava queimando uma quantidade enorme de diesel que não precisaria ser queimada.

Você pode adivinhar o que aconteceu. Eles passaram a combinar rotas. Isto significou caminhões maiores, porém em número menor, e menos diesel queimado. Eles experimentaram um centro de distribuição para servir algumas das lojas agregadas mais próximas. O centro de distribuição adicionou uma certa quantidade de tempo e trabalho ao processo, mas (a) cumpriu a entrega na mesma manhã da fazenda para a loja, e (b) cortou a quilometragem tremendamente. A Henry’s adicionou centros de distribuição maiores e percebeu uma eficiência ainda melhor. Hoje, o modelo de distribuição no mesmo dia que vem da fazenda de produtos cultivados localmente, dificilmente pode ser distinguido dos modelos do Wal-Mart ou qualquer outro grande varejista.

É aqui que ele parece contra-intuitivo: Se você olhar para o trajeto viajado por qualquer uma das caixas de produtos, ele é muito maior do que costumava ser. Elas não viajam mais em uma única linha reta da fazenda para a loja; elas agora viajam os dois longos lados do triângulo no seu caminho da fazenda para o centro de distribuição e para a loja. Mas, obviamente, esta visão limitada omite o quadro todo, onde as lojas estão estocadas com produtos que chegaram lá de maneira muito mais eficiente.

Os produtos cultivados localmente raramente são eficientes. Aplique um pouco de matemática ao problema e você descubrirá que a alternativa feia de gigantes centros de distribuição suburbanos realizam a mesma tarefa – produtos frescos nas lojas no mesmo dia em que são recolhidos – mas com muito menos combustível queimado. Isto até mesmo se estende às feiras de produtores locais como os que você deve ter na sua cidade, onde todos os agricultores da família trazem pessoalmente seus produtos à feira para vender. Imagine um mapa com o mercado no centro e as rotas de ida e volta percorridas por todos os cerca de 20 vendedores irradiando do mercado, como pontas de uma estrela-do-mar. Aplicando nosso Modelo do Caixeiro Viajante a este mapa, fica claro que a feira dos produtores é o modelo menos eficiente possível, se você está medindo a eficiência em termos de quilômetros de entrega percorridos e litros de diesel queimados. Para reestruturar este modelo propriamente para que ele se torne tão eficiente quanto os seus proponentes acreditam que ele seja, você dirigiria um único caminhão em uma rota calculada para visitar cada fazenda durante a manhã, vender os produtos a uma única loja, e depois descartar ou doar o que sobrar dos alimentos (por que dobrar a quilometragem para devolver produtos perecíveis para os fazendeiros?).

Não me entenda mal, eu amo as feiras de produtores. Nós vamos à nossa feira local às vezes e é um programa familiar divertido para nós. Nós amamos os maravilhosos tomates e morangos gigantes que se pode conseguir. Eu odiaria ver a experiência substituída pela alternativa eficiente que acabei de descrever, mas eu entendo que as feiras de produtores são mais uma experiência de boutique na comunidade do que uma maneira eficiente (ou “verde”) de comprar comida. A verdadeira razão para apreciar a sua feira de produtores não tem nada a ver com ela ser, de alguma maneira, magicamente amigável ao meio ambiente. É o oposto.

Muito frequentemente, os ambientalistas ficam satisfeitos com a mera aparência e trajes do ambientalismo, sem considerarem os fatos por trás de todo o processo. Aplique um pouco de matemática e um pouco de economia e você descobrirá que uma menor pegada ambiental é o resultado natural da eficiência melhorada.